on Sunday, October 23, 2005
O Sporting é um clube engraçado. Às vezes hilariante mesmo. Se não existisse, teria de ser inventado, pelo que José Alvalade, há 99 anos, 3 meses e 23 dias, não fez mais do que concretizar algo de inevitável, que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Eu gosto de ser sportinguista e não me consigo imaginar noutra pele. Mas que há (muitas) coisas que me fazem espécie, lá isso... Uma delas chama-se Ricardo Manuel da Silva Sá Pinto, a quem vou dedicar as próximas linhas.

Sá Pinto, também conhecido por muitos adeptos leoninos por Ricardo, Coração de Leão (!), é, para mim, um dos maiores equívocos que o Sporting já viveu (sim, eu lembro-me de Waseige, Peseiro, Missé-Missé ou Balajic, entre outros). Como é sabido, Sá Pinto é, desde há longos anos, um dos grandes ídolos da massa adepta sportinguista, com destaque para esse grupo iluminado chamado Juventude Leonina. Porquê? Não faço a mínima. Alegadamente, Sá Pinto é um verdadeiro sportiguista, que dá tudo dentro de campo, possui garra leonina, etc, etc. Para mim, em português corrente, isso é uma tanga gigantesca. Sá Pinto é dos jogadores que menos merece o estatuto de ídolo em Alvalade. Vou recordar alguns episódios que me levam a esta declaração, não diria de ódio... ou melhor, diria, diria.

Chegado ao Sporting em 94/95, vindo do Salgueiros (onde se especializou a fazer a vida negra ao... Sporting), Sá Pinto não se tornou titular indiscutível imediatamente. No entanto, as saídas de Figo, Balakov, depois Amunike, foram permitindo-lhe ganhar espaço na equipa. Até que resolveu estragar tudo, em 96/97. Espetou umas bolachadas em Artur Jorge, então seleccionador nacional, e foi castigado por um ano. Foi a primeira que ele aprontou ao Sporting. Mas tivemos sorte, encontrámos um asilo para ele, no País Basco. Na Real Sociedad cumpriu um contrato de três anos: no primeiro ofereceram-lhe uma Game Box para poder ver os jogos todos da equipa, no segundo calçou as chuteiras e fez umas coisas bonitas (já que falei no poeta, acho que ele merece uma citação) e no terceiro atrapalhou mais do que ajudou. Pelo que não renovou contrato.

Sem clube, Sá Pinto deu uma bela entrevista, onde revelou o que lhe ia na alma. Estava sentido com o Sporting por ainda não o ter contratado e, com uma chantagem psicológica de amador, recordou que era portista desde pequenino e que podia ter ido para as Antas em 94, mas, contra o seu coração, veio aterrar em Alvalade. Por incrível que pareça, o Sporting mordeu o isco e voltou a contratá-lo. Daí para cá tem sido o que se vê. Primeiro lesões, depois um visível (para quem quer ver) factor de impedimento de uma boa manobra colectiva, com uns golos pelo meio, claro. A última situação que me convenceu ainda mais que Sá Pinto é mais dado à sua causa do que à causa leonina aconteceu o ano passado, na recepção ao Rio Ave: penalty a favor do Sporting, Liedson prontificou-se a marcar, visto que era uma tarefa sua, mas o grande Ricardo não deixou. Ele sim, merecia marcar o penalty! Claro que tudo passou incólume, Peseiro, interrogado sobre o tema, limitou-se a mostrar o seu famoso sorriso amarelo. E hoje lá está Sá Pinto em grande, titular, às vezes capitão... E sempre, sempre, a atrapalhar o trabalho dos companheiros, como se viu esta noite em Barcelos.

Na cidade minhota, um lance definidor de Sá Pinto ficou na minha memória. Wender estava preparado para entrar, quando há uma falta favorável ao Sporting perto do local da substituição. Sá Pinto marca a falta rapidamente, mas o árbitro já tinha dado ordens para a alteração. O número 10 (!) protesta ferozmente, volta a pegar na bola, coloca-a no sítio e volta a marcar o livre. O árbitro volta a interromper e o Sá a refilar. Só então se apercebe da substituição, que ia decorrer dois metros atrás de si. Resultado, cerca de um minuto perdido quando o Sporting perdia por 1-2. Para mim, este lance resume o que é Sá Pinto: pouco inteligente, precipitado, refilão... Tudo o que um jogador modelo não pode ser.

Tantas vezes me revoltei eu em Alvalade ao ouvir os adeptos leoninos a chamarem tudo ao Pedro Barbosa, sempre que este perdia uma bola, e a aplaudirem Sá Pinto quando fazia o mesmo. Segundo a mole humana, o primeiro perdia a bola por ser um “chulo que não se mexe”, o segundo por “ter muita garra e dar tudo em campo”. Pedro Barbosa, um jogador com cérebro, que só queria ser apreciado dentro do campo (alguém sabe quem é a mulher dele?, quantas vezes o viram em revistas do coração?) saiu entretanto de Alvalade, sem honra nem glória, depois de dois títulos de campeão nacional, uma Taça e três Supertaças. Já o Sá, que de vez em quando lá aparece com a sua Frederica nas revistas cor-de-rosa (pelos vistos já desistiu de ser modelo), lá continua a contaminar o grupo de trabalho. Vale que apenas por mais uns meses (espero que não haja reviravoltas de última hora). Mas se for preciso ainda lhe dão um cargo qualquer no clube e teremos de o continuar a gramar...

PS - Não quero ser injusto e reconheço que tenho algo a agradecer a Sá Pinto. Lá para 1996, dois golos seus permitiram uma vitória por 3-0 sobre o FC Porto, em Paris, na finalíssima da Supertaça dessa época. Nove anos depois, ainda não percebi que mais fez ele de bom pelo clube.
on Friday, October 21, 2005
Na véspera de aniversário do "aranha negra" Lev Yashin, escrevo um post sobre um assunto que dominou a actualidade desportiva portuguesa desde à umas semanas para cá... A situação insustentável do Sporting Clube de Portugal, clube pelo qual nutro o maior respeito.

É com muita preocupação que tenho seguido a situação no clube verde e branco, nestes últimos dias. No ano do centenário de uma das maiores instituições desportivas deste país, essa mesma instituição depara-se com uma crise interna grave. Falo mais aprofundadamente do futebol, claro, mas não descarto as outras modalidades (já lá iremos). Tudo começou à muitos anos com a criação do denominado "Projecto Roquette". Este "projecto" foi defendido pelos dirigentes leoninos até à última, mas será que já não está ultrapassado? A estratégia adoptada pelas direcções nos últimos anos trouxe um grande desenvolvimento em termos de infra-estruturas, de qualidade do desporto praticado e mesmo de finanças, pois embora com algum despesismo exagerado, o Sporting tem conseguido manter a sua sanidade financeira, mesmo com os ataques dos seus oponentes!

No entanto, não nos esqueçamos que a má gestão dos recursos levou a uma política de contratações, em todas as modalidades, muito abaixo do que era esperado. A atitude dos dirigentes face à situação do clube era de indiferença e na última época pode-se observar muito bem isso. O Sporting sempre se orgulhou de ter a melhor escola de formação de jogadores e as vitórias obtidas pelas equipas jovens comprovam-no, porém outros clubes começam a aproximar-se e a atrair jogadores de grande qualidade para as suas camadas jovens. A Direcção de Dias da Cunha desprezou as outras modalidades: O Sporting orgulha-se de ter a mais vasta sala de troféus do país e uma das maiores da europa, mas nos últimos tempos nem tantos troféus têm entrado nessa sala... Foram extintas modalidades em que o Sporting já foi histórico, não só a nível nacional, como internacional; As verbas disponíveis para outras modalidades eram mínimas; O Presidente chegou a assumir a pasta do futebol por inteiro, demonstrando um total desrespeito pelas outras modalidades! Sim, eu sei que o futebol é o mais lucrativo e o desporto com mais visibilidade, mas será que modalidades históricas podem ser esquecidas?

A demissão de Peseiro (que não tinha mão no plantel e tinha uma relação tensa com os adeptos), de Paulo Andrade (um incompetente) e de Dias da Cunha (nunca mais largava o tacho!) foi um começo. Filipe Soares Franco assumiu a Presidência e chamou Paulo Bento para treinador. A equipa técnica tem caras novas que, com certeza, irão dar um novo rosto ao futebol do Sporting. O regresso de Carlos Freitas constitui, também, um factor positivo para os leões.


Mesmo assim, os problemas não estão ainda resolvidos, longe disso. A actual direcção está muito ligada à anterior e, embora tenha mostrado mais alguma maturidade, está longe de ser a mudança fundamental para o Sporting. Faltou a coragem de convocar eleições amtecipadas! Podemos considerar que esta é uma época de transição para o Sporting... O clube verde e branco deve, agora, lutar em todas as frentes! Em Maio ou Junho do próximo ano haverá eleições e aí muitos sportinguistas terão esperança de ver novas caras e novas políticas! Nesta época não se poderá exigir muito ao Sporting, mas todos os sportinguistas devem apoiar, mais do que nunca, a sua equipa, se são verdadeiros sportinguistas!

Há muita coisa que tem de mudar neste Sporting... é altura de começar a abrir caminho para os futuros dirigentes! O nosso blog estará lá quando for tempo de eleições! Para mim o candidato mais indicado seria Jorge Kataklinsman, mas não sei se ele estará interessado depois de receber o convite da FIFA para suceder a Joseph Blatter no comando da maior instituição do futebol mundial...

on Sunday, October 16, 2005
O jogo e o resultado registados na noite de ontem no Dragão fizeram-me regressar a uma teoria que há alguns anos fermenta na minha cabeça: o ciclo dominador do FC Porto está a acabar. Depois de conquistado o famoso penta, em 1998/99, o clube portuense começou a entrar numa curva descendente, que parece estar a acentuar-se. Não, não me esqueci dos dois campeonatos recentes, da Taça UEFA, da Liga dos Campeões... Claro que eu sei que foi nesta fase que eu apelido de descendente que os dragões viveram, provavelmente, os dois melhores anos da sua história. Mas isso não serve de exemplo, pois neste caso aplica-se uma nova versão do provérbio inventado por Mário Wilson (quem treina o Benfica arrisca-se a ser campeão). A nova versão será: quem é treinado por José Mourinho arrisca-se a ser campeão.

Não restam dúvidas nenhumas que o grande FC Porto de 2002/04 é uma obra do “special one” e que qualquer outro treinador não teria conquistado o que ele conquistou. Senão vejamos a diferença de rendimento de alguns jogadores durante e depois de terem estado às ordens do setubalense mais famoso do Mundo: Jorge Costa, Nuno Valente, Ricardo Costa, Maniche, Costinha, Derlei, McCarthy, entre outros. Todos eles baixaram o nível das suas exibições (no FCP, na selecção ou nos clubes para os quais se tenham transferido) depois da saída de Mourinho. Tirando Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho, ainda hoje orientados por Big José, apenas Deco se manteve ao mesmo nível, tanto no Barcelona como na selecção. Possivelmente, nem mesmo John Terry, Frank Lampard e Didier Drogba, por exemplo, serão o que são hoje se deixarem de ter Mourinho a orientá-los. O futuro o dirá.

Voltando à vaca fria, recordo que, a seguir ao penta, em 1999, o FC Porto teve um jejum de campeonatos de três anos, o que não acontecia desde 1984. Nesses 15 anos, os dragões nunca estiveram mais de um ano sem saborear o título principal do nosso futebol. Fernando Santos ficou na história por ter conquistado o penta (na realidade, Bobby Robson e António Oliveira tiveram mais mérito, pois venceram dois campeonatos cada um), mas também por, nos restantes dois anos que trabalhou nas Antas, ter perdido dois campeonatos seguidos. Em 1999/2000 perdeu para o Sporting na última jornada, ficando a quatro pontos do campeão. No ano seguinte foi derrotado pelo Boavista, terminando a prova a um ponto do inédito campeão. Ambas as épocas foram, no entanto, douradas pela conquista da Taça de Portugal. A época 2001/02 representou mais um (ou dois) degraus na descida de nível do FCP. Por um lado, pela primeira vez em muitos anos, não lutou pelo título até ao fim. Os dragões terminaram a prova em terceiro lugar, a sete pontos do campeão Sporting e a dois do vice Boavista. De facto, só na última jornada o FC Porto garantiu a presença na Taça UEFA, que, aliás, acabou por vencer no ano seguinte. O outro degrau descido prendeu-se com o “mérito” de pela primeira vez desde 1988/89 (13 anos antes), os dragões não terem vencido qualquer troféu numa temporada (Campeonato, Taça ou Supertaça). Mas nem tudo foi mau, pois foi nesta temporada, já na segunda volta, que José Mourinho chegou às Antas, substituindo o cada vez mais mal-amado Octávio Machado. O resto, é história.

A época transacta deu a sensação de ter decorrido logo a seguir à de 2001/02. Tirando um ou outro jogo em que houve superação (Sporting no Dragão, Benfica na Luz, mas sobretudo CSKA em Moscovo e Chelsea no Dragão), o FC Porto nada mostrou da equipa que tinha maravilhado a Europa poucos meses antes. Eliminado na Taça à primeira, na Liga dos Campeões nos oitavos-de-final, apenas conseguiu lutar pelo campeonato até ao último dia, embora sem grandes esperanças. E mesmo aí, não cumpriu a sua obrigação. 24 pontos perdidos em casa (incluindo um escandaloso 0-4 frente ao Nacional), apenas 39 golos apontados e 62 pontos conquistados são números negativamente esclarecedores e só o facto de termos tido o campeão nacional mais fraco de sempre (como demonstrei em posta anterior) permitiu aos dragões terem ficado perto do título.

Esta época parecia que não ia ter nada a ver com a anterior. Muitos e bons reforços foram contratados e até o treinador, apesar de ter quase 60 anos e nenhum título conquistado, foi acolhido como, finalmente, um substituto à altura de Mourinho. Pois bem, depois de uma quantidade cada vez mais apreciável de desaires, Co Adriaanse parece-se cada vez mais com José Peseiro, principalmente o da época passada. Só se pensa no “processo ofensivo”, que se lixe o “processo defensivo”. Resultado: às vezes marca-se mais do que se sofre, outras vezes sofre-se mais do que se marca. Daí que o FC Porto parece, tal como o Sporting do ano passado, um grande candidato à obtenção de muitas e boas vitórias morais.

Outra situação explica o que se passa no Dragão. Com muito dinheiro nos bolsos, o FC Porto tem vindo a investir em cada vez mais estrelas, quando todos sabemos que o clube tem conquistado as suas grandes vitórias com base em equipas sobretudo operárias, abrilhantadas por uma ou outra estrela. Madjer e Deco são exemplos dessas estrelas, com a particularidade de serem reveladas ao Mundo com a camisola azul-e-branca e não contratadas já com esse estatuto. Ora é isso que se está a perder cada vez mais no Dragão. Olhando para o jogo de ontem, vemos que no onze titular apenas surgia uma grande referência do clube, precisamente na baliza. Com o afastamento de Jorge Costa, a equipa de campo fica sem referência e daí ao disparate é um passo, como ontem mostraram Ricardo Costa, Bruno Alves e outros.

Concluindo: parece-me que o ciclo glorioso do FCP está a terminar. O que acaba por ser normal e lógico, visto que o mesmo aconteceu ao Sporting, depois dos anos 40 e 50, e ao Benfica, depois das décadas de 60, 70 e até de 80. Pela lógica, seria o Sporting a iniciar agora o seu período de vitórias, no qual cheguei a acreditar depois dos títulos de 2000 e 2002. Mas no futebol é difícil haver milagres e com incompetência não se vai a lado nenhum. Daí que pense que é o Benfica quem tem melhores condições para atingir novamente o domínio do futebol lusitano. É triste (para mim, pelo menos), mas é verdade.
on Saturday, October 15, 2005
Estava a ser um jogo pouco interessante aquele particular no famoso estádio de Wembley, decorria o ano de 1995. Apenas 20 mil pessoas presenciavam a partida entre Inglaterra e Colômbia e a expressão “jogo de treino” estava a ser levada à letra. Aos 22 minutos de jogo, o médio inglês Jamie Redknapp, com um vulgar “balão”, envia a bola para a deserta área colombiana. Este lance nunca mais seria lembrado (bem como o fraco jogo)…se não fosse o excêntrico René Higuita, guarda-redes sul-americano, a transformá-lo num dos mais belos momentos da história do desporto. Ao invés de apanhar a bola calmamente, Higuita salta, ficando de barriga para baixo, dobra as pernas para trás e afasta a bola com os pés, num reflexo extraordinário. Estava inventado o "pontapé escorpião".
“Se ele tivesse feito isto ao serviço da selecção inglesa nunca mais seria convocado”, comentara mais tarde o lendário Gordon Banks. Já o médico da selecção britânica ficara impressionado pela convicção de Higuita ao realizar uma acrobacia que o podia lesionar gravemente para o resto da vida.
Não era contudo, a primeira vez que Higuita realizava algo pouco ortodoxo: o mítico guardião colombiano era conhecido em todo o mundo pelas suas contínuas investidas com a bola nos pés, controlando-a até para além do meio-campo. E uma dessas célebres ousadias resultara na eliminação da sua selecção no Mundial 90, em Itália, quando o camaronês Roger Milla não se deixou enganar por uma finta e, depois de um roubo de bola, fuzilou as redes que tinha à sua mercê.

Higuita - Antes e depois de ir ao Tallon
Também conhecido pelo facto de não se limitar a defender foi Jorge Campos. O “keeper” mexicano dos anos 90, para além de se evidenciar devido às camisolas dois tamanhos acima do adequado e com cores garridas, fazia questão de jogar, sempre que possível, como ponta-de-lança. Mas desenganem-se aqueles que pensam que o atleta originário de Acapulco era um tosco completo: surpreendentemente dotado de uma técnica muito acima da média, para além do facto de ser exímio na cobrança de lances de bola parada. Participou em 2 mundiais (EUA 94 e França 98) e representou o seu país por 129 vezes, para além de ter passado por 5 dos maiores clubes do seu país (Pumas, Atlante, Cruz Azul, Tigres e Puebla) e duas formações norte-americanas, Los Angeles Galaxy e Chicago Fire. Marcou 35 golos ao longo da sua carreira.

A América do Sul é, definitivamente, um continente rico no que toca a guardiões com pouca vocação para passarem despercebidos. José Luís Chilavert é talvez aquele de maior renome no que toca aos últimos anos: 2 vezes considerado o melhor guarda-redes do mundo (1995 e 1997), o paraguaio passou pelo Sportivo Luqueno, do seu país natal, San Lorenzo e Velez Sarsfield, da Argentina, contando ainda com uma passagem pelo espanhol Saragoça. Marcou 62 golos ao longo da sua carreira, 8 deles ao serviço da selecção. Foi visível a sua desilusão ao sofrer um golo de Laurent Blanc, nos oitavos-de-final do Mundial 98, já nos minutos finais do prolongamento. O apito que indicaria o final do tempo extra estava muito próximo e daria início à marcação de pontapés da marca de grande penalidade (chiça, tanta coisa para dizer “penaltys”), lances onde Chilavert era especialista, tanto a defender como a marcar…

Gamarra festeja mais um triunfo paraguaio no Mundial 2002, enquanto Chilavert parece assustar o seu desamparado companheiro de equipa
Muitos são os defensores das redes que seguiram o mesmo caminho e fazem o gosto ao pé com regularidade. Rogério Ceni, brasileiro do São Paulo, e Hans Jorg Butt, alemão do Leverkusen, são exemplos disso. Já Ricardo “Labreca” devia começar a fazer o mesmo…
Caríssimos, estou de volta a esta casa que edifiquei, este antro de cultura desportiva, este pátrio da blogosférica. Agradeço desde já todas as palavras de carinho e preocupação manifestadas pelos fãs, leitores e amigos da Malta daTropa que Curte Bola. O momento era (e é) complicado (não tanto como o de Artur Jorge ao ver os seus Camarões falharem uma penalidade decisiva no último minuto dos descontos), contudo podemos afirmar que um homem foi instrumental no meu regresso. O homem que tornou a Premier League no campeonato mais entediante do Mundo, o homem que afirma "acima de mim só Deus e mesmo assim com algumas reservas", José Mário Mourinho dos Santos Félix.

Acabei de perder uma aposta e como homem de palavra só me resta sair do asílo jornalitisco e regressar.
Disse-me o Zé ao intervalo: "Cavra se dermos 5 ao Bolton, regressas á Malta da Tropa que Curte Bola?" ... ao que eu retorqui.
"Mas Zé, vocês ainda não fizeram um remate de jeito à baliza, como queres dar 5?"
Visivelmente enervado o Zé fitou-me nos olhos e atirou: "Não só vamos dar 5, como aos 15 minutos já estamos a ganhar 3-1. O meu ordenado contra o teu regresso?"
Nunca entendi muito bem esta irritante mania que o Zé tem em apostar o ordenado com o pessoal por dá cá aquela palha, mas o cenário era animador e decidi aceitar.

Muito se passou na minha ausência, desde os regressos de Octávio Cagado e Alexi Lilás, à contratação de Francismo Beck, ao apuramento dos palancas negras (prometo que vou postar sobre vocês), passando pelas asneiras contínuas de Ricardo e Paulo Ferreira (este último só de quinas ao peito), até à classificação dessa personificação da pós-modernidade que é a selecção Togo.

Poderia comentar a ecatombe dos gigantes africanos, ou então antever o clássico de logo á noite, mas não. O meu post de regresso é todo ele dedicado ao monstro de Stamford Bridge, nomeadamente aos seus primeiros passos como treinador principal.
Estavamos em 2000, o Benfica era uma equipa destroçada, espalhando alegria pelas bancadas dos diversos estádios do país e Suécia (quem não se recorda da derrota em Halmstad?).
João Vale e Azevedo, homem sério e astuto dá guia de marcha ao alemão Jupp Heynckes e contrata o então adjunto do adjunto de Louis Van Gal, o inexperiente José Mourinho.

A epopeia daquele que é o melhor treinador do mundo começou em pleno estádio do Bessa ante o sempre complicado Boavistão de Jaime "o futebol é para homens de barba rija" Pacheco.
Estudioso, Zé alertou os seus pupilos para o principal perigo dos boavisteiros. Bola em profundidade para as costas do lateral contrário, centro ao primeiro poste e golo.
Primeiro minuto de jogo, bola em profundidade para as costas de Ricardo Rojas, centro ao primeiro poste e ... Golo do Boavista. Estava feito o resultado final.
Visivelmente perplexo com a situação, Mourinho pensou para consigo mesmo: "Mas que jogador é este Rojas?"

Ricardo Ismael Rojas (Ricky para os amigos), nasceu em Posadas Misiones (Paraguai), no dia 26 de Janeiro de1971.
Do alto do seu 1,76 mts e 80 Kgs (medidas ideias para um jogador de futebol), Ricky iniciou-se em 1992 nesse colosso do futebol paraguaio que é Cerro Corá.
Em 1994 um salto qualitativo na carreira rumo aos Estudiantes de la Paz, clube no qual permanece 4 anos, abrindo-se-lhe as portas da Europa, nomeadamente as da Luz.
Uma época plena de sucesso de águia ao peito e o retorno ao continente sul americano, agora ao Chile, para representar o Universidad.
O espírito Globetroter aliado às suas (in)capacidades levam-no um ano volvido a rumar ao histórico River Plate.
Um trota mundos, um incompreendido, um abnegado, alguém que podia muito bem ter mudado o curso da história.

Por hoje é tudo amigos leitores, prometo voltar em breve com o rescaldo do Porto - Benfica.
Saudações
on Tuesday, October 11, 2005
Caro povo, estou de volta após a minha demorada ausência, da qual me desculpo desde já. Os deveres como Assistente Secundário de Pré-Preparação de Estágios das Camadas Jovens do Padroense FC têm sido uma constante, e tenho tido pouco tempo para as andanças jornalísticas.

Como havia prometido, na 2ª das Historias do Bessa, trago-vos a lendária e inesquecível história... do Erivan de Glasgow! É uma história longa, mas vale cada bocadinho!

Erivan, jovem lateral esquerdo brasileiro, assinou pelo Boavista na histórica época de 2000/01, e com a lesão de Quevedo, cedo garantiu o lugar na equipa de Jaime Pacheco... visto que não havia mais laterais esquerdos...

Entre os adeptos axadrezados, Erivan ganhou a carinhosa alcunha de “O Buraco”, devido á sua incrível capacidade de falhar qualquer bola aérea que se cruzasse para o lado esquerdo da defesa. Desenvolveu também ao longo das épocas ao serviço do BFC uma impressionante habilidade em atrasar a bola perigosamente para o Ricardo, fazer preciosas assistências para os avançados contrários, e acima de tudo, uma noção de posicionamento digna dos melhores amadores do sec.XIX.



(podemos vê-lo nesta foto escondido atrás de Frechaut, aquando a imposição das faixas de campeão de 2001)

Envergando o dorsal numero 6, parecia já não haver esperança para este jovem brasileiro, que a cada semana, parecia criar novas formas de golos adversários, sendo que eu acredito mesmo que com tanta criatividade ele daria um excelente nº10... sorte do Sanchez de ninguém mais se ter lembrado disso na altura...

Numa altura em que o Boavista começava a somar participações historicas nas competições europeias, não deixava de ser cómico ver o Erivan disputar lances com jogadores como Cafu ou Steven Gerrard...




Mas então... porque raio merece o Erivan um post n’o blog da Malta? Simples...

A historia remonta a 2002/03, quando o Boavista heroicamente disputava a meia final de uma histórica taça UEFA com o Celtic de Glasgow comandado por Martin O’Neil, que viria a perder a final com o FC Porto de José Mourinho (sabem quem é, não sabem?). A primeira mão foi agendada para o Celtic Park, cuja lotação esgotada previa um verdadeiro espectáculo de futebol. O Celtic cintilava com estrelas como Vargas, Baldé, Lennon, Hartson e o invevitável Henrik Larsson (...there’s only one...), que disputava a liderança da lista de marcadores com Derlei do FC Porto.

Para o Boavista foi um grande dia da sua história, pois nunca havia atingido tal feito numa competição europeia. Os jornais enchiam-se de entrevistas a jogadores como Pedrosa ou Filipe Anunciação. O clima era de expectativa e nervosismo.

Minutos antes do inicio do encontro foi divulgado o 11 inicial... e o mundo axadrezado gelou...

Na baliza Ricardo, os centrais Turra e Pedro Emanuel, Frechaut do lado direito e Pedro Santos do lado esquerdo... os Boavisteiros respiravam de alívio... até ao momento em que é anunciado, que o meio campo que apoiaria a dupla ofensiva Silva/Duda era composta nem mais, nem menos, que por Ávalos, Filipe Anunciação, Pedrosa e.... ERIVAN! Sim! No dia do jogo europeu mais marcante da historia do clube, Pacheco decide adaptar Erivan médio centro!
Pânico, sufoco, loucura, fala-se até mesmo de suicídios enquanto a equipa entrava em campo e o Erivan se dirigia para o meio campo. Os boavisteiros interrogavam-se sobre o prazer que Pacheco teria em oferecer uma vitória aos escoceses sem nada em troca... Eu interrogava-me se os Deuses do Futebol estariam loucos, ao que o Pelé me respondeu “Eu tou bem, cara, mas aquele Maradona não sei não...”

...Mas naquele dia... Naquele dia algo era diferente...

Acredita-se que naquele dia os planetas se alinharam e o inferno gelou... O que vos vou contar, maus amigos, está na historia do oculto, do indesvendável da realidade humana...

Com poucos minutos de jogo, Erivan recebe a bola, e em poucos toques, ultrapassa Lennon com um “lençol”, e faz uma impressionante abertura de passe longo para a ponta direita do ataque, onde Duda ganhou um canto. Perante o olhar incrédulo dos axadrezados que bem o conheciam (ou pensavam que...) Erivan foi fazendo jogada atrás de jogada, trocando os rins aos adversários, ganhando mesmo um lendário corpo-a-corpo a John Hartson, distribuía jogo, recuperava bolas, voluntariava-se para as bolas paradas e criava perigosíssimas situações ofensivas (sim! para o Boavista!)... um verdadeiro Matthaus de xadrez!

O momento chave situa-se pouco depois do inicio da segunda parte, quando no flanco esquerdo do meio campo, Erivan faz passar a bola por cima de Agathe, roda sobre ele próprio, e faz uma impressionante abertura para Filipe Anunciação, que com alguma sorte á mistura abria o marcador. O jogo acabaria por ficar 1-1 (o inevitável Henrik Larsson empataria o jogo minutos depois do lance inspirado de Erivan, e o mesmo Larsson teve tempo ainda para falhar um penaltie, devido a uma soberba defesa de um guarda redes do Boavista chamado Ricardo, actualmente de paradeiro desconhecido...)

Erivan, homem do jogo no Celtic Park. Até o proprio site do clube de Glasgow o confirmava. No dia seguinte os jornais davam algum destaque ao jogo de Erivan, e principalmente a escolha táctica de Pacheco, mas entre os boavisteiros estavam perante uma história surreal, que até aos dias de hoje arrepia contar.

A continuação da história não tem muito de emocionante... Os boavisteiros e o mundo interrogavam-se se estaria ali escondido atrás de um lateral esquerdo lastimável um verdadeiro meio campista de escala mundial. Até mesmo numa edição d’O Jogo da semana desse jogo, Erivan proferiu a célebre “Já me sinto um médio..:”

No sábado dessa semana, Erivan actuou a meio campo contra o Paços de Ferreira, jogo que ficou a zero, e Erivan foi substituido ao intervalo após ter entregue inúmeras bolas ao adversário, e ter rematado uma bola desde a marca de penaltie, que de forma impressionante saíu pela linha... lateral!

Na 4a feira seguinte jogaria apenas 30 min contra o Celtic, na 2ª mão, mostrando uma capacidade de incompetência em campo só ao alcance dos predestinados!

Erivan jogaria apenas mais um jogo pelo Boavista, e seria dispensado no decorrer dessa mesma época. Actualmente cria situações de golo para os adversários do Varzim na II Liga, equipa onde actua.

E com este final feliz me despeço, espero que tenham gostado, embora ainda esteja por desvendar o que realmente aconteceu naquela noite no Celtic Park...

Prometo em breve mais historias e reportagens, cumprimentos.
on Monday, October 10, 2005
Depois de "Meu querido Simão", "Simão muda de penteado" e "Cuidado Simão, não leves cartão", chega a Portugal mais um êxito d´A Bolha:
O PEQUENO MICCOLI!

Que triste jornalismo desportivo...